quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Antes que eu pronuncie
    Blasfêmias
        Santas ou
            Tartufarias de
                Ratoeiras
                    Agruras e ardores
                        Inconstantes, inconciliáveis
                            Afoga-me.
                              
                                   

                                   Mata, mata! Sufoca
                                    Esta leitura inexata!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Cantiga de ninar

Se te privei da dança
Da vida,
Minha criança,
Minha querida,
Dou-te o berço
Da linha
E o braço
Do verso
Que chora e te aninha

domingo, 24 de outubro de 2010

Matrioshka

           Em Berlim. Era lá que deveríamos ter terminado o nosso passeio, depois de visitarmos o tio, eu pensava tiritando por culpa do ar gélido de Pskov. Que ideia, esticar a aventura na Rússia como se estica a madrugada em uma padaria, comendo pão de queijo e café preto para curar a ressaca. Saudade do pão de queijo. Saudade do trinco enferrujado da porta da minha biblioteca. Que fazíamos ali, naquela ponte, cobertos por nossas lãs inúteis, cada um no seu mundo, meio juntos, mas nunca próximos? Quantas milhas me separavam da esperança que um dia eu tivera de, após uma longa caminhada, ter nas mãos os objetivos que encontraria no meio da estrada mesmo. Muitas milhas, milhas minhas, centímetros de essência escondida. Centímetros que se espalhavam pelas minhas bochechas de dúvida quando ouvi a resposta. Você parece uma daquelas bonequinhas russas. O quê? É, daquelas que guardam uma igualzinha dentro da outra.
            Silêncio. Matrioshkas. As bonequinhas. Sabe, se eu olhasse para dentro de mim, encontraria um fígado seminovo. E um qualquer, vendo de fora, imaginou tanto! Olhei para o rio congelado debaixo da ponte. Tirei os brincos, que incomodavam. Descascada. Recoloquei os brincos. Medo de não achar nada senão vazio dentro de madeira morta. Se eu fosse uma Matrioshka, queimar-me-ia. Frio, frio. Uma lufada de vento. Meu reflexo alvirróseo na fina camada de gelo. Pensei em Narciso. Não, eu não me afogaria por aquela imagem. Quem sabe, só para descobrir o que há por trás dela. Entretanto, tinho medo das especulações. “Não sou nada, nunca serei nada”. Fastio. Queria voltar para o hotel. Ânsia de escrever. Não sou nada, senão tudo o que sou à parte meu presente estático. Sorri. Com os pés bem fincados no chão, voava. Epifanias que não são dignas do nome. Outro pedaço meu. Traço de realidade imaginada. Vulgaridades, como a pele sem significado. O significado sou eu. O signo sou eu. Não eu-Lucia. Não eu-mulher. Eu, fração inteira do mundo. Eu-você. Eu-humano. Conjectura-se o nada. O nada se imagina. Nós. Criação.
            Encontrei um espetáculo. Encontrei-me naquele instante (para me perder de volta no segundo seguinte). Parágrafos e parágrafos não transfeririam as infinitas camadas que descobri. Impossível reconstituí-las, estão guardadas para outro pôr-do-sol-sem-sol na Rússia. Para outra valsa fantasiosa em minha cabeça. Para uma madrugada de choro. Para um sorriso. Para o último cigarro, que precede o túmulo. Por enquanto, vivo dramática. Mais extasiada do que apática. Quando as bonecas de madeira perderem a alma, queimem-nas para que elas se transformem em calor. Por enquanto, nem o fogo nem a neve pode contê-las.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Outra carta velha

            Queridíssima:
            Ontem, a sua mãe me ligou. Sim, sei que você já sabe. Ela me disse que eu não deveria levar a filhinha de dezessete anos dela para o mau caminho. Pensei em lembrá-la de que eu tenho dezesseis. Concluí, entretanto, que isso soaria como uma acusação. Ou como a confirmação de que acredito no mau caminho. Pergunto-me sobre o que vocês conversaram quando ela descobriu. Aliás, descobriu mesmo? Não importa. Sei que isso não altera nada entre nós. Você continua e continuará me buscando, mesmo que inconscientemente, cada vez que passar em frente a um bar com cheiro de pecado para tomar um uísque duplo. Como na noite em que nos conhecemos. Oh, não, não pense que a subestimo ou que me considere interessante demais para ser esquecida. Mas você sempre foi um espelho de minhas próprias vontades. E ainda permeia, insidiosa, meus pensamentos mais alegres.
            Lamentável que as melhores respostas só me venham à cabeça horas depois. Se o telefone tocasse novamente e eu ouvisse a voz da dona Leila, diria a ela que não se preocupasse – que nascemos para amantes, e não para namoradas. Será que ela teria uma síncope nervosa que a liquidasse de uma vez por todas? Eu me vestiria de rubro em seu enterro. Só para ver se você me desculpava. Aposto que sim. Já disse que você fica bonita depois de chorar? Com as bochechas quentes e os lábios úmidos. Linda, linda. À parte a minha afronesia sobre o fim de sua progenitora, sinto-me sinceramente disposta a provocar suas lágrimas. Só para secá-las. Nem que seja com a língua. Ou para vê-la quase desidratar, convulsiva. Para vê-la sucumbir a mim. Seria capaz de lhe dizer que quero que você vá à merda, sua ordinária, só para ganhar a beleza do seu pranto. E depois pedir: Ah, perdoe-me, de uma vez por todas, deite aqui no meu colo para ganhar um cafuné. Talvez você seja a perfeição em forma de mulher, me dá o seu olhar de cordeirinha e resiste a cada uma das dores que eu lhe inflijo e que tanto me comprazem. Sim, você continua e continuará me buscando – senão nos bares, ao menos perto do bebedouro da sala de artes, onde nos amassávamos escondidas.
            Agora, com licença, que quero me contradizer: Estou em processo de recuperação. Juro. Tenho lido os poetas. Engolido os poetas. Tornei-me uma romântica incurável. E você, querida, transformou-se em versos mais bonitos que essa carta. Versos que nunca lerá. Não quero que descubra ser não minha Julieta eterna ou minha Marília de uma noite só, mas a mulher que me inspira a cada noite singular, com o perdão do pleonasmo, constantemente e pouco a pouco. Sim, meu bem, já prevejo a sua fraqueza. Continuará me buscando, mas em outro alguém. Minha vingança foi traçada. Saberá ter sido somente a feliz amante de uma sádica. E enquanto você evanesce, sugada pela mais abjeta das tradições, eu escreverei nossa história para perdê-la de vez. Quiçá assim eu consiga novamente despertar no coração de uma nova Julieta, Marília, Beatriz, Dulcinéia e Charlotte mais do que apenas a gentil piedade em reconhecimento ao esforço, ou a submissão infantil, mas a paixão que avassala. A paixão que avassala e que se perpetua somente pelo abandono.
            Lucia.

domingo, 17 de outubro de 2010

Que venhas doido e doído
Doer comigo
Queimando em azul a centelha
Chama a insustentável chama
Nossos nomes
Nossas fomes
            Infames
Que venha tua boca à minha orelha
Sem pronunciar promessa
(Cada gesto meu ou teu confessa
Espera e pavor do amanhã)
Que esqueçamos, só um pouco
            - Embriagados nos braços um do outro -
Saber a paixão tão curta e vã
E mesmo sem delírios de amor
            Que venhas, querido. Por favor.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

            Estávamos no sofá da sala de tevê, eu com a cabeça em seu colo, tão dedicada a representar Julieta que minha Lady Macbeth se recolheu em algum lugar dentro de mim como se não existisse mais. Ele passava a mão nos meus cabelos, eu sentia uma preguiça boa. Por um lado, gostava que ele me tratasse como uma bonequinha. Já não me lembrava da última vez que um homem olhara para mim como se eu valesse à pena. Pensei no que aconteceria com nossa rotina a partir de agora. Andaríamos de mãos dadas pelo shopping, cantarolaríamos músicas bobinhas no carro, a caminho de casa, e dividiríamos um pote de Häagen-Dazs assistindo a um DVD. Ele me beijaria lentamente, me olharia com ternura (ternura, meu Deus!), afinal, aquele seria o tipo de relacionamento em que se pensa mais em sentimento, e menos em sedução. Não era o que eu estava acostumada, mas caretice para mim era novidade, e decidi arriscar. Sim, eu arriscaria. Permitiria-me até adormecer naquele colo...
            - Clara...
            - Sim?
            - Eu acho que te amo. Não, não é verdade. Eu tenho certeza. Eu te amo.
            Abri os olhos. Ele dissera mesmo aquilo? Precisava pensar rápido.
            -...
            Droga, não sabia pensar rápido. Com cara de quem acabou de acordar, percorri o seu rosto com as costas da mão, cheia de afeto. Aquilo deveria bastar, por enquanto. Suspirei e voltei a cerrar as pálpebras. Merde. Se não estivesse tão envolvida naquele teatro, levantaria, daria pulos de desespero e gritos de horror. Eu já ouvira aquela frase antes, especialmente seguida de juras de suicídio em caso de abandono. Tudo bobagem, é claro, e a exaltação romântica me trouxera a certeza de que meu interlocutor cometera um equívoco: tratava-se de paixão, não de amor. Contudo, as palavras de André haviam sido ditas com uma serenidade que não deixava dúvidas.
            Lembrei-me rapidamente do que ele conhecia sobre mim. Filho do melhor amigo do meu pai, sabia que eu tinha uma habilidade culinária incrível, que adorava Chanel (eu e sua mãe tínhamos como único assunto a moda), que sonhava em conhecer o mundo. Acredito que já percebera também a minha capacidade retórica, mas nem imaginava a minha opinião sobre a Família, o Casamento e o tal do Amor.
            É claro que eu não me orgulhava de meu passado. Mas também não me arrependia. Amor, amor, amor! Ora essa! Senti raiva, primeiro. Depois, tristeza. Doía saber que ele me idealizava, que não era por mim aquele sentimento que eu não admitia. Será que era esse amor capaz de me curar? Difícil, eu não me considerava digna dele. Será que eu seria poderia, por André, me transformar na mulher amada? A mulher amada, todavia, parecia-me muito tola.
            Eis a verdade: meus machucados não me doíam. Eu havia mudado à custa deles. Nunca quis uma cara-metade. Gostava de ser assim, meio incompleta, até deformada, surreal. Encontrava-me, cheia de angústia, obrigada a enxergar que não se ama uma mulher que não precisa de ninguém – elas são quase psicopatas. Se André era bom demais para mim, eu já não me importava em ser ruim.
            Silenciei, insegura no primeiro instante. Depois, aguardei impaciente até que chegasse a hora de nos despedirmos.
            Mudei o número do meu celular, voltei a fumar (havia parado desde o nosso primeiro beijo) e “caí doente” durante todos os dias em que se realizaram coquetéis de trabalho de papai. La vie est passionante, mais l’amour? Pas pour moi.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Resumo da ópera

Curiosíssimo o meu fado
De masoquista alegria:
Sonhar com apaixonados
Que laureiam atrás de Sophia

sábado, 9 de outubro de 2010

Recópia de alucinações deliberadas

            Pergunto a qualquer amigo, a qualquer passante, como este gostaria de morrer. Primeiro, recebo uma expressão de horror, seguida de um comentário sobre o tempo, sobre a alma e demais tolices e, por fim, diante de certa insistência, ouço que meu interlocutor gostaria de morrer "bem velhinho, dormindo, de preferência, com o barulho do mar". Haja fraqueza. 
            Penso sobre o meu próprio fim em tais circunstâncias. Imagino uma senhora muito feia comentar com sua sobrinha que "morreu a vizinha, Dona Lucia, aquela senhorinha simpática, que estava sempre a preparar deliciosas broinhas de milho e erva-doce". Imagino meu cadáver de papel amassado, mais alvo do que o corpo jovem que possuo hoje, talvez pelos ralos cabelos brancos, ainda que a pele esteja salpicada de manchas, de carcinomas basocelulares e o diabo a quatro. Imagino minha irmã e meus sobrinhos a lamentar a perda por cerca de duas semanas, para depois seguirem suas vidas como se eu nunca houvesse existido - nada mais natural. E meus amores, estes também já estão há muito a sete palmos abaixo da terra. Desagrada-me a ideia de ninguém se lembrar de minhas pernas, agora inertes e judiadas por varizes horríveis. Desagrada-me mais ainda que, ao adquirir o que chama de experiência, eu tenha aprendido a resistir aos chamados mais lânguidos e, assim, lutado com toda a força de minha velha fragilidade, cheia de artroses contra o beijo sedutor e inexorável da morte. Apavoro-me ao pensar que esmoreceria não só a minha juventude, mas também as minhas palavras ácidas haveriam sido maturadas, adoçadas pela vida. 
            Como gostaria de morrer? Ora, não se pode fazer exigências por demais para um acontecimento assim. Se pudesse escolher, contudo, optaria por... Quem sabe, optaria por decidir, eu mesma, a hora da partida. Juntaria dinheiro apenas para gastá-lo. Não deixaria um tostão para ninguém: Não pretendo ter filhos, minha própria avó uma vez mencionou que, às crianças, deve-se ensinar apenas modos e amor à vida. Modos? Sei dizer “por gentileza e sorrir sem a mínima vontade, mas é somente pelos anos de experiência. Amor ao que quer que seja, bem, já caí doente por causa deste e, como acabou por tornar meu coração imprestável, não tive outra escolha senão a de jogá-lo fora. Sob tal ótica, colocar crianças no mundo seria um erro que não gostaria de me permitir. Voltando à partida: Talvez eu me vestisse com um Armani e me atirasse do décimo quinto andar de um hotel. Quem sabe, apenas esquecesse de acender o fogão quando fosse assar meu derradeiro bolo de chocolate, asfixiando-me com gás e deixando como única herança uma grande porção de massa crua.
            Penso em outra possibilidade: um assassinato. Não falo das balas perdidas ou dos homicídios causados pela resistência a um assalto na madrugada. Fantasio um crime em grande estilo, movido por razões políticas ou passionais. O motivo geral é simples: sou um perigo, sei demais, trapaceio demais, não posso mais existir. Deleito-me ao pensar que haveria, neste caso, infligido a ira de alguém ao ponto em que este se arriscaria a destruir a própria vida junto com a minha, que consideraria melhor os possíveis anos atrás das grades do que o meu respirar. Mil vezes ser odiada do que não despertar sentimento nenhum. Quem sabe, meu hipotético executor misturasse veneno para ratos à uma tacinha de Limoncello, considerando-se muito esperto, sem sonhar que desconfio de seu plano e que sorvo o licor com mais prazer desta forma. Será que ele me assistiria desfalecer enquanto ainda me sorria? Ou passaria por seus olhos uma sombra de terror? Quem sabe, ainda, eu fosse ferida por um tiro à queima-roupa, por algum incauto, inexperiente, que acertaria um órgão vital, porém de forma que eu tivesse alguns minutos para rir, esvaindo-me em sangue, e tresloucada perguntar: "Por quê? Por quê? Por quê?", ao que ele tentaria, cheio de cólera, me responder, mas ao encontrar meus olhos de desprezo, calaria-se para sempre, certo de que não havia necessidade de explicações. 
            Já partindo para o plano de utopia, a história de meu fim terminaria com meu corpo queimado embaixo de um viaduto ou atirado em um rio tão poluído que não seria possível encontrá-lo mesmo após buscas incansáveis (que provavelmente não aconteceriam). Se eu tivesse ainda mais sorte, meu querido desafeto estaria tão fora de si que cruelmente me picaria em pedaços e me jogaria fora, ou me espalharia por cantinhos na rua para assustar mendigos, ou talvez fritasse um pedacinho da minha coxa para comer no jantar acompanhado de um bom pinot noir - se assim fosse, não haveria o risco de que minhas ordens para que cremassem meus restos fossem ignoradas e que eu fosse vestida de rendas cor-de-salmão, pérolas e cabelos moldados com baby-liss, submetida à farsa de um velório, de lágrimas sem sal que não ardem nos olhos, e, por fim, enterrada para sempre como o cada bom inútil que dá seu último suspiro.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Poesia nula ou Memória

Não sei dias, não sei noites
Sei somente
A menina deitada de All Star na cama
(Sonho lençol vida mundo – tudo é mesmo lama)
Divagando – amor, amigo?
Entre agulhas, cigarros
E suco com gérmen de trigo
O mundo é um quarto
Um corpo (o meu)
Ontem, uma era e todo o passado
            Um dia guardado
                        De riso e de nuvem
                                   De culpa sem culpa
                                               Seu nome é Ninguém
                                                           Ninguém, outro passo
                                                                       (A linha termina, eu me desfaço)
                                                                                              Sem fio de lembrança
                                                                                                          Morri tantas vezes!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

            A título de curiosidade: Estou escrevendo um livro (aliás, estou odiando e revisando e remoendo um livro já escrito) e o trecho que segue é o primeiro parágrafo do meu projeto. Aviso: O pedaço, obviamente, está relacionado à continuação do texto, entretanto o livro é um romance e não uma reunião de filosofias de boteco, ao contrário do que a introdução poderia indicar.

           A vida insossa nos oferece a tentação de um néctar mortal, do qual tendemos a beber com voracidade até cairmos, inertes, sobre o prato da longevidade. Ou então, dispensamos o doce, o embriagante, e engolimos em pequenos bocados a ração triste da qual dispomos, até que ela se exaura junto com a nossa irrelevância. Envenenar-se é tão essencial quanto nutrir-se, pois o prazer de viver é o nosso cianureto disfarçado de vinho. Matar-se contidamente, então, é a chave da plenitude humana. Equilíbrio. Eis o desafio.

           (Continua. Ou não)

domingo, 3 de outubro de 2010

Quase carta

          Quando o presente, que nasce do passado, quer assassinar o ontem, dizem que estamos maduros. Ser maduro, então, é atear fogo em toda a nossa razão de ser? Afinal, nossos objetivos mudam conforme desviamos das pedras em nosso caminho. Perdoe as antigas Lucias, se lhe convier, mas não tente fazer-me dizer que elas nunca existiram. Venha cá e olhe para mim, pela primeira vez sem máscaras. Sabe, querido, isto não é sobre nós dois. Não somos uma unidade, embora eu lhe queira muito. Talvez minha honestidade o ofenda: Não posso ser o que você quer que eu seja. Cada palavra sua, branda ou ríspida, traz a mesma pergunta: "O que é amor para ela?". Cale suas interrogações, a resposta está aqui. Leia-me, não fujo, não temo. Deixe que eu o abrace, que eu o conforte. Fique. Ou vá. O hoje é a certeza de que posso sobreviver a tudo. Até a você.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ah, Amsterdã das tulipas
Maios menos bonitas
Rainhas subjugadas
Da primavera noturna
E rubras como os olhos injetados
Que caíram da ponte.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Haikai para os imaginativos (2)

Ainda sobre o figo
Novo, aberto, vivo sente
Fome de semente

sábado, 25 de setembro de 2010

              O céu é cinza-violeta manchado de ocre por um sol que grita atrás das nuvens, sufocado. Do lado de cá, a atmosfera pesa. Todo o centro cheira a tempestade e pastel. Ah! O zunzum da cidade ao cair da tarde: Jovens ambiciosos usando ternos baratos, senhoras muito religiosas pregando no ponto de ônibus, prostitutas que pisam firme na calçada traiçoeira e movem os quadris com agilidade. Zunzum abafado por Chico Buarque no meu MPmuito. Tragicomédia com exímio elenco de bailarinos desajeitados. Perdoem-me o excesso (difícil descrever o previsível sem que o leitor se enfastie), mas o óbvio redesenhado pelo presente e pelo futuro perde os traços de um passado distante, e tenho de procurar algo que torne o momento algo mais que a ansiedade da calmaria.
            Volto-me para meus planos, a fila que não se move é uma dádiva para minha sede criativa. Não imagino um novo poema, mas aquilo que realmente há de mudar minha existência: Juntar um dinheiro aqui e ali, uma viagem - que triste é a vida com os cobres contados. Ainda bem que existem os pequenos amores que nos distraem - será que ligo para o Eduardo, chamo-o para um jantar e dê no que der? Alguém me cutuca: A fila andou (penso bem: Andou mesmo). A ilusão de cinco passos é desmanchada por um problema no caixa. Olho para fora. Vai mesmo chover. E eu precisava passar no mercado. Que Helena não apareça em minha casa hoje. Como voltar às minhas afronesias belíssimas ante a minha realidade ainda mais imbecil?
            A catedral do outro lado da praça me faz notar que continuo na mesma Cidade Sorriso bipolar de sempre. Enquanto amaldiçoo o agora, chega à frente da igreja, tímida em seus andrajos, uma senhora franzina. Volta o rosto para cima. Como eu, sabe que vem água. Procura um lugar mais coberto, mas cada toldo já possui “dono”. Que lhe resta? Carrega alguns papelões. Anda em círculos como um cão que estuda o território. Para. Uma idéia genial. Genial! A alguns metros dali, uma lata de lixo. Estica seu paupérrimo leito parcialmente sob ela. Quando o céu desabar, sua cabeça permanecerá quase seca.
            Pago minhas contas. Caminho rapidamente. Passo pela mendiga. Pingos esparsos e grossos caem. Batem no metal, ressoam. Molham os farrapos que recobrem a pele curtida. Cada vez mais constantes, as gotas. Geladas, impiedosas. Fujo, embora elas sejam minhas irmãs. Corro, corro e alcanço um táxi: Desperdício necessário. Não me volto para olhar. Sei que a velha continua lá. Dou o endereço para o motorista. Partimos, é claro. Ou você havia conjecturado outro final?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Eu sou o tempo de que outro alguém? Futuro
Projeto do aqui, falha, fio de voz
Esmorecendo a cada novo escuro
Ou queimando a certeza de um após

Estive quem, segundo longo atrás?
Espio por sobre o ombro – Onde? Onde? Onde?
Se ontem mal ondulava minha paz
Agora agoura, foge, mente, esconde!

Espaço de infinito infinitivo
Para encontrar-te temo e sobrevivo
Víscera ou vácuo, caco de universo

No âmago meu, teu, céu de centro etéreo
Centelha o nada, estrela-mãe estéril
Cuspindo-nos o tudo todo ao inverso

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

            O péssimo hábito de entrar discussões sem solução e debater com idiotas fez com que eu reconsiderasse a minha promessa de evitar escrever textos sem enredo (que parecem apenas incitar polêmica). É irresistível, tenho de me defender, com o perdão do lugar-comum: A igualdade entre os sexos, nos dias atuais, não passa de mera ilusão. 
            Os conformistas considerarão a afirmação absurda, afinal, a geração que vive hoje veio após a (assim dita) emancipação que possibilitou às mulheres a independência financeira e a autonomia nos relacionamentos, entre outros clichês repetidos à exaustão. Todavia, o passado está impregnado no presente de forma oculta (ou não), e nossa herança cultural, acumulada desde o período Clássico, é extensa.
            Tomando, por exemplo, o pensamento aristotélico, verifica-se que a mulher foi considerada um homem mal-acabado durante toda a Antiguidade. Resquícios desta tese são claríssimos também nas produções do século XX, sendo reforçada pela psicanálise de Freud, ao declarar inexorável a “inveja do pênis”. Com um pouco mais de atenção, observa-se que os mesmos pensadores (homens) os quais se aventuraram a questionar convenções, resumem a mulher aos conceitos naturalistas, puramente anatômicos: A mulher é um ser marcado para a possessão.
            Outro velho lugar-comum é a tendência geral ao “grande temor” da fraqueza, da paixão que entra em conflito com a razão. Os homens sonham, cobiçam, imaginam o sexo das mulheres. Temem-no, portanto. Sabendo que a “posse” do corpo alheio os aniquila por si só, e não pretendendo potencializar os riscos de insucesso, os homens criaram (e criam) inúmeros recursos para garantir a subserviência feminina e a eterna dominação sexo-intelectual.
            A despeito da repressão, as inverdades ditadas durante tanto tempo não passaram despercebidas aos olhos de mulheres inteligentes. “Não nascemos mulher, tornamo-nos mulher”, diz Beauvoir. O rompimento com os conceitos deterministas que serviram de molde para a organização social de quase todo o mundo até a década de 60 foi, sim, um avanço imensurável em relação aos pequenos passos dados até então na busca da liberdade. Como de praxe, entretanto, a má interpretação das palavras de excelentes autoras pôs muito a perder.
            O feminismo teve efeito limitado, ao queimar sutiãs e agir como se fosse impossível o exercício da liberdade a menos que as mulheres se transformassem nos homens a quem declarava ojeriza. Contudo, menos ainda fizeram as que aproveitaram as “licenças” recém-adquiridas para multiplicar o uso da sedução como arma ou moeda de troca na conquista de seus interesses (tudo dentro do preceito da igualdade).
            Ironicamente, foi neste momento em que projeto de igualdade desmoronou, pois se acirrou a guerra dos sexos. Favorecidos ainda são os homens, que não tem de optar entre dignidade e prazer, vaidade e reconhecimento.
            Por que insistir em “fracionar” a mulher? Seriam elas tão assustadoras sob a forma de um indivíduo completo?
            A indiferenciação é um drama, porque em geral não existe e, quando existe, ambos os lados saem perdedores. Não se admite que todos os gêneros, diferentes como são, possam ter o mesmo valor e os mesmos direitos, preservando suas próprias características. Ao contrário disto, prefere-se a disputa e ignora-se que homens e mulheres são complementares: A trégua só será possível quando sexo e filosofia não trouxerem segregação, mas aliem-se na busca de gozo e criação.

domingo, 19 de setembro de 2010

Boca falou...

- Eu acredito na forca
- Ah, é mesmo?
- Claro
  Desde que não seja eu o
               
                 E
                 n
               f o r
            ca     d...

sábado, 18 de setembro de 2010

Mania estranha, invejar os versos meus:
Precisa-se de dúvidas e lágrimas
Para escrever a vida em bons troqueus
Riscar dor, riso e engano em brancas páginas

E quantas frustrações em tinta encerro!
De fato, todo bem é um empecilho
A real beleza da arte mora no erro
No passo em falso e na ameaça de exílio

Tantas maldades líricas e vis!
Premeditados crimes, heresia
Trejeitos inconstantes de uma atriz

Somente o desespero traz poesia
Atenta: Cada letra está sangrando
Martiralgoz até no canto brando...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

             Na penumbra cotidiana de uma terça-feira à noite ouço o som da TV do vizinho. Quero levantar e fumar, mas não vou, meu cabelo está molhado e vai ficar com um cheiro terrível se eu o fizer. Meus olhos ardem. Lentamente, vinda sabe-se lá de onde, a angústia me absorve (angústia, esta palavra tão démodé, não encontro outra...), eu bocejo, embora não tenha a intenção de dormir. Que estranho, estou viva. E a consciência me faz querer fugir dela própria. Percebo meu peso sobre o colchão velho, minha respiração me aterroriza. Encolho-me como um feto adulto, débil, desejando retornar ao útero da mãe que em pouco tempo hei de perder.
            Fecho os e escuto profecias nefandas escritas em olhos por detrás de lentes que refletem a luz branca de uma clínica. Se eu pudesse rezar... É possível que a religião, tão dogmática, possa vencer o não menos dogmático cientificismo? Não posso, não quero me apegar a nada. E a agarro-me ao travesseiro, imagino um soluçar dolorido, que direito tenho eu de sofrer? Preparo-me para o luto, como sou insensível! Esqueço os cabelos, alcanço o meu Charm e vou para a varanda.
            Acendo o cigarro muito tranquila, mas é só por um momento. Trago rápido. Não consigo livrar minha mente das metáforas ou vôos poéticos. Será que trago a vida, também, depressa demais? Egoísta. Gulosa. Quem sabe até má. Só que não é a mim que chama a morte, pelo menos não hoje. A poesia existe para os vivos. Quem já não respira, já não respira. Eu solto a fumaça num suspiro.
            Preciso me distrair. Fazer as unhas, visitar a Flávia em Cascavel, alguém que me faça feliz para sempre pelo próximo mês e meio. Brûlée, a gata, mia de dentro da lavanderia. Largo a bituca no canteirinho mesmo. Escrevo. Duas, três linhas. Quero engolir o Aurélio e achar palavras rebuscadas que não me exponham tanto. Desisto. A chata da Brûlée continua com seus protestos. Vou ver o que é. Abro a porta e ela escapa para o sofá da sala, aninhando-se na almofada. Deixo-a lá. De volta ao quarto. Meu celular vibra na cabeceira. Uma mensagem. Leio. Babaca. Penso em ligar para casa. Oscilo. Cedo e disco o número. Minha mãe atende. Desligo e vou dormir.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Se eu escrevesse para a Marie-Claire

Tudo bem, queridos leitores, pegaram-me no flagra. Confesso: Posso ser bem fútil também. Fuzilem-me. Mas antes, leiam.



Duas pequenas listas:

Cinco coisas que não se deve exigir de um homem


1- Que ele seja rico

A não ser que você também seja. O dinheiro é uma algema. Não faça de namoro profissão, pois é um investimento arriscadíssimo, as dívidas criadas são enormes. E a conta sempre chega.

2- Que ele tenha o Q.I. de um gênio

Você vai querer matá-lo a golpes de machadinha quando ele a corrigir. E de que adianta o seu eleito ser um exímio matemático, gramático, geógrafo, se não fizer nada de útil com esse conhecimento todo além de se envaidecer?

3- Que ele seja lindo

Fale a verdade: Você nunca fez dieta? Nunca tomou remédio para acne? Não tem celulite? A beleza está nos detalhes. E nos olhos de quem vê. Quem nunca conheceu um feio-bonito?

4- Que ele seja um monge

Você está estressada porque não deu tempo de fazer escova, está quatro quilos acima do peso e vai ficar menstruada. Aí, devido a tais tragédias, anuncia que não vai mais ao show que vocês tinham combinado de assistir juntos há dois meses. É claro que só o que ele pode fazer é dizer que “Tudo bem, claro, minha linda, meu amor”. Capisce?




5- Que ele ature seus sobrinhos, que diga que a ama todos os dias, não se esqueça do aniversário da sua bisavó e nunca pule as preliminares.

É simples: Quando o amor é óbvio demais, se o seu “casinho” simplesmente se esquece de si e faz to-das as suas vontades, bem, não é a você que ele ama. Ele a idealiza, põe você num pedestal. E aí, fodeu: A gente não gosta de quem se coloca abaixo. E, mesmo que gostássemos, um belo dia ele descobriria que aquela princesa estava mais para ogra (bem mais).




Cinco coisas que é prudente exigir de um homem:


1- Que ele tenha dinheiro e não seja sovina

Afinal, imagina-se que você também tenha o seu. Direitos iguais. Agora, pedir cinqüenta centavos para pagar a metade da cocada comprada na praia é um balde de água fria. O mesmo vale para quando um dos dois for entrar na fila do cinema e o outro for pegar lugar no restaurante, porque o shopping está cheiíssimo. Quem for para a bilheteria paga e ponto final.

2- Que ele seja inteligente e minimamente engajado.

Não é necessário que ele tenha lido Foucault, mas que tenha ao menos ouvido falar. Que saiba que “berinjela” não se escreve com “g”. Que tenha pendor para alguma coisa, ou melhor, que já tenha descoberto um (porque todo mundo tem). E, se ele falar que não gosta de política, já que ‘essas paradas’ não alteram em nada a vida dele, au revoir.

3- Que ele seja limpinho

Dispensa explicações.

4- Que não ouse ficar “putinho” sem dar explicações, e que jamais a agrida.

Pois para exigir algo de um homem, é necessário que ele seja um homem, e não um moleque mimado. E bater, só a pedidos.

5- Que ele tenha timing

Porque é sempre bom receber um telefonema inesperado. Ou quando ele passa a mão na sua perna enquanto dirige, com a cara mais séria do mundo. E não é nada mau um pouco de suspense. Tem graça saber onde ele está e o que está fazendo a cada minuto do dia? Tenha dó.