domingo, 24 de outubro de 2010

Matrioshka

           Em Berlim. Era lá que deveríamos ter terminado o nosso passeio, depois de visitarmos o tio, eu pensava tiritando por culpa do ar gélido de Pskov. Que ideia, esticar a aventura na Rússia como se estica a madrugada em uma padaria, comendo pão de queijo e café preto para curar a ressaca. Saudade do pão de queijo. Saudade do trinco enferrujado da porta da minha biblioteca. Que fazíamos ali, naquela ponte, cobertos por nossas lãs inúteis, cada um no seu mundo, meio juntos, mas nunca próximos? Quantas milhas me separavam da esperança que um dia eu tivera de, após uma longa caminhada, ter nas mãos os objetivos que encontraria no meio da estrada mesmo. Muitas milhas, milhas minhas, centímetros de essência escondida. Centímetros que se espalhavam pelas minhas bochechas de dúvida quando ouvi a resposta. Você parece uma daquelas bonequinhas russas. O quê? É, daquelas que guardam uma igualzinha dentro da outra.
            Silêncio. Matrioshkas. As bonequinhas. Sabe, se eu olhasse para dentro de mim, encontraria um fígado seminovo. E um qualquer, vendo de fora, imaginou tanto! Olhei para o rio congelado debaixo da ponte. Tirei os brincos, que incomodavam. Descascada. Recoloquei os brincos. Medo de não achar nada senão vazio dentro de madeira morta. Se eu fosse uma Matrioshka, queimar-me-ia. Frio, frio. Uma lufada de vento. Meu reflexo alvirróseo na fina camada de gelo. Pensei em Narciso. Não, eu não me afogaria por aquela imagem. Quem sabe, só para descobrir o que há por trás dela. Entretanto, tinho medo das especulações. “Não sou nada, nunca serei nada”. Fastio. Queria voltar para o hotel. Ânsia de escrever. Não sou nada, senão tudo o que sou à parte meu presente estático. Sorri. Com os pés bem fincados no chão, voava. Epifanias que não são dignas do nome. Outro pedaço meu. Traço de realidade imaginada. Vulgaridades, como a pele sem significado. O significado sou eu. O signo sou eu. Não eu-Lucia. Não eu-mulher. Eu, fração inteira do mundo. Eu-você. Eu-humano. Conjectura-se o nada. O nada se imagina. Nós. Criação.
            Encontrei um espetáculo. Encontrei-me naquele instante (para me perder de volta no segundo seguinte). Parágrafos e parágrafos não transfeririam as infinitas camadas que descobri. Impossível reconstituí-las, estão guardadas para outro pôr-do-sol-sem-sol na Rússia. Para outra valsa fantasiosa em minha cabeça. Para uma madrugada de choro. Para um sorriso. Para o último cigarro, que precede o túmulo. Por enquanto, vivo dramática. Mais extasiada do que apática. Quando as bonecas de madeira perderem a alma, queimem-nas para que elas se transformem em calor. Por enquanto, nem o fogo nem a neve pode contê-las.

5 comentários:

  1. Parece ser assim - cada um no seu mundo, meio juntos - sempre sozinhos. Água e oleo que não se misturam... Mas mantêem a chama das lamparinas acesas. Abraços.

    ResponderExcluir
  2. profundo isso.
    dentro de si um outro dentro, infinitos espelhos.

    olha: "Entretanto, tinho medo das especulações."
    abraços

    ResponderExcluir
  3. Maravilhoso! Parabéns! Você é uma excelente escritora! Sucesso com suas palavras!

    ResponderExcluir
  4. Me encontro em suas palavras.
    ;)

    ResponderExcluir